Ao quebrar do relógio.

“Naquela tarde de sábado, o cheiro de chocolate pairava no apartamento. Luísa mal podia esperar para por em prática seu lado de chef, principalmente para esquecer a semana turbulenta que tivera. Concentrada, prendeu seus cabelos num rabo de cavalo, como se também quisesse deixar para trás a pouca experiência com culinária e as lágrimas do dia anterior.  Meses se amontoavam no passado e Luísa não conseguia acreditar que passaria mais um mês afastada d)e seu namorado. Depois de tantas discussões sem sentido ao telefone, Lucas decidira passar mais quatro semanas fora de casa. Luísa não suportava pensar em quanto tempo estivera completamente só. Olhar para o relógio e perceber quanto tempo passou e o quanto ainda estava por vir era um pouco cruel.

Formas, massas, ingredientes e sabores formavam uma adorável bagunça que a própria cozinheira mal conseguia se encontrar. Com tantos erros durante a semana, talvez Luísa não suportasse se até sua receita não desse certo. Depois de colocar o bolo no forno, acrescentou à bagunça seu delicado relógio de pulso para certificar a hora certa de retirar sua receita do forno. Colocou-o em cima de seu avental que nunca fora usado e, sem se dar conta, formou um cenário delicado que escondia certa tristeza por trás de todos os amáveis apetrechos coloridos da cozinha. Enquanto lavava as panelas e as hastes da batedeira, o telefone cantou uma melodia animada que fez com que Luísa se assustasse. Ao sair da cozinha, sua blusa arrastou o avental, derrubando o relógio.

Os ponteiros, por mais que quisessem, não conseguiam sair do lugar. Luísa olhava atordoada para a cena, enquanto o telefone não se cansava de gritar por sua atenção. Ela permanecia imóvel, agora sem conseguir conter suas lágrimas. Luísa agia como se o relógio parado no chão pudesse fazer com que o tempo retrocedesse, fazendo com que Lucas não aceitasse prolongar a viagem. Luísa se via sorrindo ao telefone, imaginando uma situação de uma realidade paralela em que eles combinavam a hora do encontro no aeroporto. Fechou os olhos com força para que as imagens em sua mente se tornassem mais nítidas, mas depois de se conformar que não conseguiria fazer o tempo voltar com sua mente ou suas mãos, concentrou-se em retirar o bolo do forno, apanhar o relógio quebrado e verificar seu celular. O visor acusava uma chamada perdida e uma mensagem que fez com que todo o devaneio de Luísa parecesse real ou valesse a pena: “Amor, adiaram minha viagem pro semestre que vem. Tô voltando pra casa. Quando eu chegar a gente conversa.” Desajeitada, ela sorriu e se esforçou para responder: “Tá certo. Fiz bolo de chocolate pra gente… Tô te esperando!”

(Marina Vasconcelos)

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