Sobre um relógio.

“Era um relógio de bolso, prateado, antigo, com cheiro de café e bolo de fubá da casa da vó, com contornos de antiguidade bem preservada. Bom, pelo menos era assim que ela o via, carinhosamente e com apego. Na versão menos romantizada das coisas, era apenas um pequeno relógio de bolso que tinha sido achado no meio das coisas de uma tia-avó distante que mal havia conhecido e que havia falecido recentemente. Logo, no meio de uma caixa grande com objetos dessa tia, entre roupas, colônia de alfazema, escova de madrepérola, botões e outras quinquilharias mais, estava ele lá, esse pequeno responsável fiscal das horas, dançando no bolor do tempo, meio gasto, meio amado, meio esquecido, meio atingido pelo tempo, meio esperando ser resgatado e quiçá ter alguma utilidade pra alguém.

Não havia motivo aparente para que ela tenha se sentido tão atraída por aquele pequeno objeto, sem maior valor aparente a olhos nus, mas como a própria vida é uma constante de atos e sentimentos que nascem, mexem-se e remexem-se e morrem sem aparente motivo cristalizado, era assim que ela sentia e pronto. E assim que o viu e perguntou para sua mãe se poderia se apossar dele e tal graça lhe foi concedida, prontamente meteu-o no bolso, fechou a porta do quarto, pulou na cama, tirou seu pequeno regalo do bolso e pôs-se a admirá-lo como se de ouro fosse, como se falasse com ela no seu mais íntimo ser. E assim tudo se pôs no lugar.

Ia com ele para escola, para o parque, tomar sorvete, ao cinema, à padaria do seu Pedro. E como que por mágica, quando precisava que as horas passassem depressa, como quando ia ao dentista ou tinha uma aula deveras enfadonha para assistir, punha a sua mão dentro do bolso, segurava-o forte e como que por mágica, tudo corria veloz e passava rápido. Ao passo que quando se tratava de alguma situação (pizza! cinema! pessoas queridas por perto!) que desejava ardentemente que os segundos se arrastassem como caramujos entorpecidos por calmantes, agarrava-o em seu bolso da mesma forma, e parecia que tudo entrava num estado de leveza, torpor e transe, onde podia desfrutar cada instante como se fossem séculos de prazer que tardariam muito e muito a terminar.

E foi assim que num desses dias calmos de domingo, enquanto escutava um disco de música francesa de sua mãe em sua vitrola, deitou-se na cama, esticou as pernas e os dedos do pé, pegou sua máquina fotográfica e resolveu tirar uma foto dele, desse seu amigo de metal, caduco para os tempos modernos, onde as horas são comumente consultadas por meio de telefones celulares escandalosos e berrantes. Porém, era inestimável. Nenhum advento de tela de cristal líquido e de conexões por milissegundos conseguia a magia de fazer o tempo correr ou ser vagarosamente gostoso quando ela bem entendia. E assim, amava-o. E assim, vivia com ele como se seu talismã e companheiro fosse, esquecendo que seu telefone celular também mostrava as horas. E era considerada esquisita entre os amigos “por puxar aquele relógio sempre que queria ver o que os ponteiros ap(r)ontavam. E assim era feliz.”

(Daniel Granatto)

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