Sutilezas do tempo.

(Fotografia por Melina Souza)
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Sobre um relógio.

“Era um relógio de bolso, prateado, antigo, com cheiro de café e bolo de fubá da casa da vó, com contornos de antiguidade bem preservada. Bom, pelo menos era assim que ela o via, carinhosamente e com apego. Na versão menos romantizada das coisas, era apenas um pequeno relógio de bolso que tinha sido achado no meio das coisas de uma tia-avó distante que mal havia conhecido e que havia falecido recentemente. Logo, no meio de uma caixa grande com objetos dessa tia, entre roupas, colônia de alfazema, escova de madrepérola, botões e outras quinquilharias mais, estava ele lá, esse pequeno responsável fiscal das horas, dançando no bolor do tempo, meio gasto, meio amado, meio esquecido, meio atingido pelo tempo, meio esperando ser resgatado e quiçá ter alguma utilidade pra alguém.

Não havia motivo aparente para que ela tenha se sentido tão atraída por aquele pequeno objeto, sem maior valor aparente a olhos nus, mas como a própria vida é uma constante de atos e sentimentos que nascem, mexem-se e remexem-se e morrem sem aparente motivo cristalizado, era assim que ela sentia e pronto. E assim que o viu e perguntou para sua mãe se poderia se apossar dele e tal graça lhe foi concedida, prontamente meteu-o no bolso, fechou a porta do quarto, pulou na cama, tirou seu pequeno regalo do bolso e pôs-se a admirá-lo como se de ouro fosse, como se falasse com ela no seu mais íntimo ser. E assim tudo se pôs no lugar.

Ia com ele para escola, para o parque, tomar sorvete, ao cinema, à padaria do seu Pedro. E como que por mágica, quando precisava que as horas passassem depressa, como quando ia ao dentista ou tinha uma aula deveras enfadonha para assistir, punha a sua mão dentro do bolso, segurava-o forte e como que por mágica, tudo corria veloz e passava rápido. Ao passo que quando se tratava de alguma situação (pizza! cinema! pessoas queridas por perto!) que desejava ardentemente que os segundos se arrastassem como caramujos entorpecidos por calmantes, agarrava-o em seu bolso da mesma forma, e parecia que tudo entrava num estado de leveza, torpor e transe, onde podia desfrutar cada instante como se fossem séculos de prazer que tardariam muito e muito a terminar.

E foi assim que num desses dias calmos de domingo, enquanto escutava um disco de música francesa de sua mãe em sua vitrola, deitou-se na cama, esticou as pernas e os dedos do pé, pegou sua máquina fotográfica e resolveu tirar uma foto dele, desse seu amigo de metal, caduco para os tempos modernos, onde as horas são comumente consultadas por meio de telefones celulares escandalosos e berrantes. Porém, era inestimável. Nenhum advento de tela de cristal líquido e de conexões por milissegundos conseguia a magia de fazer o tempo correr ou ser vagarosamente gostoso quando ela bem entendia. E assim, amava-o. E assim, vivia com ele como se seu talismã e companheiro fosse, esquecendo que seu telefone celular também mostrava as horas. E era considerada esquisita entre os amigos “por puxar aquele relógio sempre que queria ver o que os ponteiros ap(r)ontavam. E assim era feliz.”

(Daniel Granatto)

Ao quebrar do relógio.

“Naquela tarde de sábado, o cheiro de chocolate pairava no apartamento. Luísa mal podia esperar para por em prática seu lado de chef, principalmente para esquecer a semana turbulenta que tivera. Concentrada, prendeu seus cabelos num rabo de cavalo, como se também quisesse deixar para trás a pouca experiência com culinária e as lágrimas do dia anterior.  Meses se amontoavam no passado e Luísa não conseguia acreditar que passaria mais um mês afastada d)e seu namorado. Depois de tantas discussões sem sentido ao telefone, Lucas decidira passar mais quatro semanas fora de casa. Luísa não suportava pensar em quanto tempo estivera completamente só. Olhar para o relógio e perceber quanto tempo passou e o quanto ainda estava por vir era um pouco cruel.

Formas, massas, ingredientes e sabores formavam uma adorável bagunça que a própria cozinheira mal conseguia se encontrar. Com tantos erros durante a semana, talvez Luísa não suportasse se até sua receita não desse certo. Depois de colocar o bolo no forno, acrescentou à bagunça seu delicado relógio de pulso para certificar a hora certa de retirar sua receita do forno. Colocou-o em cima de seu avental que nunca fora usado e, sem se dar conta, formou um cenário delicado que escondia certa tristeza por trás de todos os amáveis apetrechos coloridos da cozinha. Enquanto lavava as panelas e as hastes da batedeira, o telefone cantou uma melodia animada que fez com que Luísa se assustasse. Ao sair da cozinha, sua blusa arrastou o avental, derrubando o relógio.

Os ponteiros, por mais que quisessem, não conseguiam sair do lugar. Luísa olhava atordoada para a cena, enquanto o telefone não se cansava de gritar por sua atenção. Ela permanecia imóvel, agora sem conseguir conter suas lágrimas. Luísa agia como se o relógio parado no chão pudesse fazer com que o tempo retrocedesse, fazendo com que Lucas não aceitasse prolongar a viagem. Luísa se via sorrindo ao telefone, imaginando uma situação de uma realidade paralela em que eles combinavam a hora do encontro no aeroporto. Fechou os olhos com força para que as imagens em sua mente se tornassem mais nítidas, mas depois de se conformar que não conseguiria fazer o tempo voltar com sua mente ou suas mãos, concentrou-se em retirar o bolo do forno, apanhar o relógio quebrado e verificar seu celular. O visor acusava uma chamada perdida e uma mensagem que fez com que todo o devaneio de Luísa parecesse real ou valesse a pena: “Amor, adiaram minha viagem pro semestre que vem. Tô voltando pra casa. Quando eu chegar a gente conversa.” Desajeitada, ela sorriu e se esforçou para responder: “Tá certo. Fiz bolo de chocolate pra gente… Tô te esperando!”

(Marina Vasconcelos)